LEMBRANDO O JOÃO DE DEUS
Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte – MG

Sem perder o foco de considerações importantes e permanentes, levando-se em conta sua singularidade de vida e missão, o Papa João Paulo II, no domingo, primeiro de maio, quando a Igreja celebra a festa da Divina Misericórdia - por ele instituída para o segundo domingo da Páscoa - está no horizonte da Igreja e do mundo, com a celebração de sua beatificação, presidida pelo Papa Bento XVI, em Roma, no Vaticano. O reconhecimento das virtudes heróicas desse Papa e o milagre atribuído à sua intercessão (a cura da religiosa Marie Simon-Pierre Normand, que sofria do Mal de Parkinson), segundo parâmetros médicos e outros necessários para tal reconhecimento, nas instâncias competentes da Cúria Romana, sustentam a importante celebração litúrgica na qual ocorrerá o rito que o tornará, oficialmente, bem aventurado. Confirma-se, todos hão de se lembrar dos dias de seu funeral: a massa humana presente na Praça São Pedro, nos arredores da Cidade do Vaticano, entrando e saindo da basílica, formando um coro, ora expresso, ora silencioso, proclamando o mesmo que aparecia em faixas: Santo já!

O Papa João Paulo II, para além de avaliações meramente ideológicas, que é um critério possível, - porém, jamais deve ser o primeiro para avaliar a grandeza de uma pessoa - é uma referência cujos traços completos inspiram, questionam. E também se tornam convocação para um entendimento diferente sobre a vida, instigando na direção de comprometimentos com incidências marcantes nos âmbitos social, cultural, religioso e político. Seu pontificado, longo e fecundo, marcou os cenários do turbulento segundo milênio; do século 20 com suas fortes cenas, muitas vezes de sangue; levando a Igreja a adentrar no terceiro milênio apostando diferente, a descortinar perspectivas novas no diálogo com as ideologias e as opções políticas. A produzir referências regulatórias nas relações entre povos, culturas e nações. Tudo isso sem abrir mão do que define o sentido completo da dignidade de toda pessoa humana, bem como do compromisso das instituições, inclusive, e em particular, da Igreja, de não renunciar à fidelidade que devem à verdade, ao bem e à justiça no amor, o único caminho para a garantia do equilíbrio que o mundo carece.
Assim como na garota, em nós fica a forte presença de João Paulo II. Referência admirável pela força de sua capacidade de mobilização, apontando sempre o Cristo, o Ressuscitado Redentor; aquele para quem ele convidou no início do seu ministério como sucessor do apóstolo Pedro, em 22 de outubro de 1978. Todos são convidados a escancarar as suas portas: do coração, da casa, das culturas e das sociedades, muitas vezes fechadas sobre si mesmas, nutrindo-se de parâmetros ideológicos preconceituosos, dissimuladores da incondicional liberdade humana e da oportunidade da vivência da fé como um patrimônio irrenunciável, sob pena de perder ganhos e rumos na vida e na história. Homem de Deus, do diálogo com todos, de coragem nas posturas, convicto em tudo. Simples, próximo e também amparado pela proteção da Virgem Maria, uma devoção que lhe valeu sustento - dela Totus Tuus. O Bem Aventurado João Paulo II, nosso intercessor, sempre lembrando o João de Deus que passou aqui.
Fonte: CNBB
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